Do cotidiano às disputas globais: o que a Seafood Expo revela sobre mercado, poder e estratégia

O consumo de peixe em celebrações, encontros sociais ou na popularização do sushi não é apenas uma escolha alimentar. Ele revela valores culturais, uma busca crescente por saúde e mudanças no estilo de vida contemporâneo. Nesse primeiro nível, o mercado responde ao indivíduo.

Por Arleandra RIcardo

O que uma bandeja de sushi em uma festa de aniversário tem a ver com disputas entre Estados Unidos e China?

Foi a partir dessa provocação que a economista Nomi Prins abriu uma das principais conferências da Seafood Expo North America, realizada no Boston Convention and Exhibition Center.

Ex-executiva de Wall Street, autora best-seller e especialista em geopolítica financeira, Prins optou por um caminho incomum. Em vez de começar pelos grandes números, partiu do cotidiano.

O consumo de peixe em celebrações, encontros sociais ou na popularização do sushi não é apenas uma escolha alimentar. Ele revela valores culturais, uma busca crescente por saúde e mudanças no estilo de vida contemporâneo. Nesse primeiro nível, o mercado responde ao indivíduo.

No nível macro, essa dinâmica revela sua dimensão mais sensível: a geopolítica. Tensões comerciais, conflitos regionais e disputas por rotas marítimas impactam diretamente preços, oferta e estabilidade do mercado. O pescado deixa de ser apenas alimento e passa a integrar estratégias de poder e segurança alimentar.

A leitura proposta por Prins é clara. O mercado global não começa nos governos, mas nas escolhas mais simples. Entre o prato e o porto, existe uma rede invisível que conecta hábitos cotidianos a decisões estratégicas internacionais.

Brasil em destaque: produção, diplomacia e estratégia

A edição mais recente da feira reuniu mais de 1.200 empresas de cerca de 50 países, consolidando-se como um dos principais espaços de articulação do comércio global de pescados.

A delegação brasileira contou com a presença do governador de Rondônia, Marcos Rocha, do ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, além de representantes do setor agrícola e do corpo diplomático brasileiro nos Estados Unidos, incluindo o cônsul Santiago Mourão, do Consulado-Geral do Brasil em Boston.

A presença conjunta dessas autoridades reforça uma mensagem clara: o Brasil está institucionalmente organizado para ampliar sua participação no mercado internacional de proteínas de origem marinha.

Rondônia se destacou nesse cenário. O estado vem se consolidando como um dos principais polos de piscicultura do Brasil, especialmente na produção de tambaqui, apresentado ao mercado internacional com valor agregado e identidade regional.

Um hub brasileiro no mercado global

Entre os estandes que representaram o Brasil, um movimento chamou atenção. Mais do que exposições individuais, formava-se ali um espaço de articulação.

Fui recebida por Luiz Ignácio Libreros, CEO da PezCo Aquafarming, empresa colombiana do setor aquícola, que apresentou em detalhes o funcionamento da cadeia produtiva e sua inserção no mercado internacional.

O estande reunia empresas como Brazilian Fish, Produmar e Allmare Alimentos, evidenciando uma estratégia conjunta de posicionamento global.

Mais do que um espaço expositivo, o que se via era um verdadeiro hub dentro da feira. Empresas compartilhavam o mesmo ambiente de forma estratégica, não apenas para apresentar produtos, mas para consolidar presença internacional.

Essa configuração revela uma mudança importante: o Brasil deixa de se apresentar apenas por marcas isoladas e passa a se posicionar como fornecedor global integrado. Ao reunir diferentes empresas sob uma mesma identidade, fortalece sua imagem, amplia sua capacidade de negociação e consolida sua presença na cadeia internacional de pescados.

Entre ciência e mercado

A experiência na feira foi compartilhada com Keila Silva Pinto, minha amiga pessoal e também profissional inserida nesse universo. Médica veterinária e mestre em Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Rondônia, Keila atua com pesquisas voltadas a espécies amazônicas, com destaque para o Arapaima gigas.

Sua presença trouxe uma leitura técnica e sensível ao que se apresentava no evento, conectando o conhecimento científico produzido no Brasil às dinâmicas do mercado internacional.

Entre estandes, negociações e projeções globais, ficava evidente que o futuro da alimentação não depende apenas da produção, mas da capacidade de integrar ciência, mercado e estratégia em escala internacional.

E para concluir, vou deixar os parabéns pela sua formatura na Approach Internacional Student e dá-lhe votos de ótimo retorno e continuidade ao seu trabalho brevemente no Brasil.

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